SÓ ME INTERESSA O BRASIL
Teresa Cristina Rodrigues
O Globo, 12/09/1988


NA ÚLTIMA ENTREVISTA, O CINEASTA JOAQUIM PEDRO FALOU DE SUA DOENÇA E DO NOVO FILME. 'SÓ ME INTERESSA O BRASIL'.

Na tarde de quarta-feira, 6 de julho, sabia que estava começando uma das mais delicadas entrevistas da minha vida. Fui com um fotógrafo para o escritório da Nádia Filmes, para conversar com Joaquim Pedro de Andrade sobre a produção do filme Casa-Grande, Senzala & Cia, baseado no livro de Gilberto Freire. Ao chegar, a secretária me pediu para telefonar para a casa dele. Pressenti: Joaquim Pedro pediu para não ser fotografado. Fiquei aguardando numa sala cheia de pastas, álbuns e livros. Enquanto esperava, Marcelo França, produtor do filme, começou a me mostrar aquele material todo, a pesquisa do filme: um trabalho impecável sobre os hábitos, roupas e arquitetura dos índios, europeus e negros dos primeiros 120 anos da história do Brasil.

Joaquim Pedro chegou meia hora depois, relativamente bem disposto. Ele tinha um jeito de falar baixinho, olhando bem dentro dos olhos da gente. Conversamos bastante – era um assunto muito sério, que merecia reflexão e estudo para ser tratado de maneira conseqüente. Pedi para ler o roteiro e depois ter uma nova entrevista. Senti a gravidade da situação: no auge da criatividade, com um projeto belíssimo, atingido por uma doença terrível, que já começava a marcar o seu físico.

Nosso segundo encontro aconteceu poucos dias depois, em sua casa, em Ipanema. Ele se cansou muito quando desceu as escadas para abrir a porta. Tivemos que esperar um bom tempo para ele se sentir disposto a falar.

O Globo – Joaquim, fiquei absolutamente encantada com a produção de seu novo filme. Gostaria que meu trabalho fosse o mais positivo possível e sei que a situação é bastante complexa.

Joaquim Pedro – É, estou com câncer. Hoje fui ao médico e fiquei sabendo que não adiantou muito a primeira série de quimioterapia, mas ele está otimista, acha que o processo é assim mesmo, vamos tentar novamente. Soube há três meses do câncer. No início do ano fiz um check-up e estava tudo normal.

O Globo – Você tem trabalhado normalmente, mas acredita que terá condições físicas para dirigir um filme com tantas locações longínquas, em condições tão desconfortáveis?

Joaquim Pedro – Já pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que posso usar o mesmo sistema de direção de novelas da Globo, por exemplo – existe o supervisor de direção e vários diretores que trabalham de maneira integrada. Posso armar um esquema semelhante, tendo um diretor, discutir as idéias e acompanhar à distância. Não preciso estar ligado diretamente à preparação das marcações de todas as cenas. O principal está pronto – a concepção, a minha visão sobre o tema.

O Globo – Em que pé está o filme?

Joaquim Pedro – Está com toda a parte de pré-produção pronta; depois de muita pesquisa, coordenada por Lula Buarque de Holanda, com consultoria dos historiadores Dirceu Lindoso e Joel Rufino, escrevi o roteiro junto com minha mulher, Ana Galano, minha filha Alice de Andrade e Ana Maria Innecco. Há dois anos estamos trabalhando no filme e já chegamos a ter mais de 50 pessoas envolvidas no projeto. As locações e o elenco estão escolhidos. Marcelo e eu fizemos bons contatos na Europa à procura de co-produtores, a parte brasileira está mais difícil.

O Globo – Você já pensou na possibilidade de falar publicamente sobre o seu processo de tratamento, sobre o seu estado de saúde? Muitas pessoas de projeção estão preferindo assumir a doença, como o ministro Dilson Funaro, por exemplo.

Joaquim Pedro – Sabe, tentei falar naturalmente com algumas pessoas e senti que o resultado nem sempre foi o esperado. Prefiro não misturar as coisas e só falar sobre o meu trabalho. Principalmente porque existem muitas pessoas queridas envolvidas e tudo isto poderia ser muito penoso.


Depois de terminada a entrevista, dei uma passadinha no primeiro andar, para dar um beijo em Dona Graciema, mãe do Joaquim. Vi aquela senhora delicada e lúcida nos seus 90 anos, tomando seu drinque e assistindo à televisão. No meio da conversa ela comentou:

– Fico tão preocupada com o Joaquim... Os médicos não estão conseguindo detectar o fungo transmitido por morcego que ele pegou numa dessas viagens à procura de locações para o filme. Deus queira que ele fique bom logo – disse Dona Graciema. Naquele momento compreendi a generosidade de Joaquim Pedro, ao silenciar sobre o que ele sabia e, mais do que sabia, sentia.


O CINEASTA & SUA OBRA
  • O cinema que faço é minha visão comentada e inventada a partir do real do mundo que a gente vive. E esta minha visão é quase sempre meio cruel e o humor é cáustico. É neste humor que acho graça.
  • Meus filmes tratam das relações entre pessoas e, freqüentemente, estas relações não são das mais agradáveis, sinceras e honestas do mundo. Faço filmes sobre a patifaria, a safadeza.
  • Não há dúvida de que nós, do Cinema Novo, fomos pretensiosos, no bom sentido, quando fizemos filmes que tratavam dos problemas da massa dos brasileiros. Fomos criticados por não nos preocuparmos com a comunicação. Mas como queríamos mudar o mundo, tínhamos que nos comunicar. Acontece que os temas tratados não eram agradáveis, porque tinham tratamento formal e ideologia diferentes dos demais.
  • Só sei fazer cinema no Brasil, só sei falar de Brasil, só me interessa o Brasil. Por isso acho importante fazer Casa-Grande, Senzala & Cia.

NOVO FILME JÁ TEM DIRETOR INDICADO

O produtor do filme Casa-Grande, Senzala & Cia é o mineiro Marcelo França, de 41 anos, que há 12 adquiriu os direitos do célebre livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire, para o cinema. Há dois anos ele convidou Joaquim Pedro para assinar o roteiro e a direção do filme.

– Perdi um amigo, e esta perda é inestimável. Foi uma amizade baseada em respeito, solidariedade e no prazer da convivência. Vivemos a construção de um grande projeto.

O Globo – Joaquim Pedro já tinha escolhido alguém para trabalhar na direção do filme?

Marcelo – Conversamos muito sobre isso, sempre acreditando que ele ficaria bom e trabalharia como supervisor. Joaquim manifestou preferência por um nome, que será respeitado, e a partir dessa semana começaremos as conversações, que só serão definidas após a aprovação de sua família e a de Gilberto Freire.

O Globo – Como está a produção do filme?

Marcelo – O filme está orçado em três milhões de dólares. Nessa primeira parte do trabalho gastamos cerca de 12% deste orçamento, com dinheiro da Nádia Produções e da Embrafilme e com apoio da GM do Banco Nacional. A produção total vai contar com 20% do Governo espanhol, 35% da Embrafilme, e 45% do Governo de Pernambuco e um outro banco privado brasileiro, com a qual ainda estamos em negociações. Portugal e Holanda participam com pesquisas e o envio de réplicas de naus do século XVII.

O Globo – Você acredita na realização imediata do filme?

Marcelo – Tudo está pronto, e Joaquim Pedro deixou a luz acesa deste projeto: realizá-lo é uma prova de resistência ao que está acontecendo culturalmente no país. Estamos recebendo apoio e solidariedade de amigos de todo o Brasil.




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