JOAQUIM PEDRO LEVOU LITERATURA ÀS TELAS
Ute Hermanns
Folha de São Paulo, 21/04/1990



DA REDAÇÃO

Quando morreu, em setembro de 1988, aos 56 anos, Joaquim Pedro de Andrade já tinha posto o seu ponto final em quatro roteiros. Um deles era esse O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador, que está virando livro numa edição da Marco Zero e da Cinemateca Brasileira, a ser lançado no dia 2 de maio, junto com uma retrospectiva dos filmes do diretor. Estavam prontos também os roteiros de Casa-Grande, Senzala & Cia, a partir do livro de Gilberto Freire, As Minas de Prata, o romance de José de Alencar, e O Defunto, sobre Pedro Nava, da mesma geração mineira de seu pai, Rodrigo Melo Franco de Andrade, e com quem Joaquim Pedro mantinha confessada afinidade, no gosto ao mesmo tempo pela tradição literária e pela esculhambação dos cânones culturais, familiares, de classe.

O câncer pegou Joaquim Pedro antes de tentar filmar esses roteiros, mas eles confirmam o que sempre se disse: foi o diretor brasileiro que mais revolveu e recriou nos seus filmes uma certa cultura literária brasileira. Ele estreou com um documentário sobre o poeta Manuel Bandeira, em 1959, O Poeta do Castelo. Em 1966, O Padre e a Moça, sobre um poema de Drummond. Veio depois – para ficar nos longas e adaptações – seu filme mais famoso: Macunaíma (Mário de Andrade). Em 1975, Guerra Conjugal (baseado nos contos de Dalton Trevisan), e O Homem do Pau Brasil, em 1981, livre adaptação da vida e obra de Oswald de Andrade. A sua última entrevista – que a Folha publica com exclusividade – foi sobre essa recriação de obras literárias nos seus filmes. Ela foi dada à pesquisadora alemã Ute Hermanns, professora de literatura brasileira em Berlim, em 18 de julho de 1988.


UTE HERMANNS
Especial para a Folha

Hermanns – Você é considerado o diretor do cinema brasileiro que adaptou para o cinema o maior número de obras literárias brasileiras. Como e por que você escolheu esses textos?

Joaquim Pedro – Não sei se sou eu quem mais adaptou obras literárias. Isso é uma prática cinematográfica muito antiga, muito usada, em Hollywood. No Brasil, existem vários fazendo isso. Creio que meus filmes têm uma relação um com o outro, quer dizer que eu sigo um caminho evolutivo, que pode ter contradições. Um filme mais recente pode contrariar um anterior, pelos princípios aplicados na montagem, pela direção, pela decupagem, pelos valores éticos, políticos, etc. Quando lido com a idéia de desenvolver um filme numa determinada linha e me cai nas mãos, por acaso – talvez porque estou interessado nesse assunto –, um livro qualquer que já tenha a coisa estruturalmente resolvida, eu pego o livro para base desse filme. O que escolho não são livros que aparentemente se prestem a uma adaptação cinematográfica. Eles não têm uma história dramática desenvolvida. Mas isso para mim constitui um estímulo porque às vezes consigo enxergar ali um filme que ainda não sei qual é, mas eu intuo a possibilidade do filme. Então, justamente pelo fato deles não terem a coisa resolvida com estrutura fílmica, eu posso chegar a soluções originais. Esse, por exemplo, foi o caso de Macunaíma, um dos filmes mais conhecidos que eu fiz. As pessoas achavam que aquele texto era insuscetível de ser transformado em filme, a não ser por um processo de desenho animado ou uma coisa assim, que pudesse retratar fielmente as mágicas todas que havia no livro. Mas eu havia enxergado um caminho para adaptação, muito simples, quer dizer, ao nosso alcance aqui no Brasil.

Hermanns – Falando em Macunaíma, quais foram as elocuções a que você respondeu com o filme, em termos de linguagem cinematográfica e também interpretação literária?

Joaquim Pedro – Muitas. Macunaíma é um filme que não tem close, para evitar a individuação dos problemas, para levar aquilo a qualquer brasileiro que pudesse passar por uma situação daquelas; que despreza qualquer limite rigoroso no enquadramento. O filme tem um enquadramento meio solto. Me acusaram de uma certa agressividade de subdesenvolvido que se sente espoliado. É a metáfora de antropofagia que passava por dentro do filme. O filme tinha uma leitura muito mais atenta de Oswald de Andrade do que de Mário de Andrade, no sentido de que era mais agressivo do que o livro. No livro há uma tendência ao apaziguamento maior do que no filme.

Hermanns – Em Casa-Grande, Senzala & Cia você adaptou uma obra que não é ficção. Fale sobre isso.

Joaquim Pedro – Casa Grande & Senzala é um ensaio. O que eu fiz foi escolher um caminho de roteiro, a meu ver bastante original, que está me dando dor de cabeça, como eu já supunha, para escolher os grupos que participaram dessa luta toda em que havia alianças e conflitos através dos quais foi se formando a civilização brasileira. Havia os índios, que se dividiam politicamente, racialmente etc., mas com uma série de regras que prevaleciam entre eles, mesmo em tribos diferentes. Havia os portugueses, que chegavam com um espírito de descobridor e de colonizador, pilhadores que se julgavam superiores. Havia os negros que começavam a chegar. Tive idéia de fazer um filme usando de cada um desses grupos elementos que não fossem os líderes para que não se tornassem porta-vozes diretos das idéias do grupo e ficassem chatos ou pouco críveis. O filme tem uns oito atores de um certo nível, que aparecem mais, falam mais e determinam as coisas. Depois, tem uns 12 atores que ficam um pouco abaixo. Não há personagens destacadas, como acontece nos filmes americanos, o que me permitiria convocar um grande ator. Casa-Grande, Senzala & Cia que eu escrevi não é assim. Será um filme popular, de fácil compreensão, histórico, no que se refere ao processo de ocupações do Brasil e ao desenvolvimento da nossa civilização. É claro que tive que tomar uma série de liberdades com a história. Na verdade, ele trata dos 120 anos de colonização do Brasil pelos brancos. Começa com a chegada dos portugueses e termina com a chegada dos holandeses, que durante um certo tempo expulsaram os portugueses do nordeste do Brasil.

Hermanns – Em Guerra Conjugal e Macunaíma você escolheu falar do anti-herói. Por quê?

Joaquim Pedro – O céu é mais aborrecido que o inferno. O inferno é muito mais divertido. A idéia de fazer uma pessoa boa no meio de tanta maldade é engraçada. O Dostoievski fez O Idiota numa situação assim.

Hermanns – Os seus heróis se encaixam perfeitamente numa tendência da literatura contemporânea que só descreve o anti-herói.

Joaquim Pedro – Acho que quando a gente faz do anti-herói a figura principal do filme uma coisa está na verdade demonstrando como é que devia ser o herói. Por exemplo, o Macunaíma é inteiramente egoísta nos propósitos dele. Ele trava lutas e mais lutas, mas essas lutas não têm um objetivo maior do que pouco espaço na frente dele. Por exemplo, quando derrota o gigante, ele se enche de eletrodomésticos que não vão funcionar na selva como troféus de guerra. É uma coisa perfeitamente inútil que ele leva: mas o ser humano é na verdade assim.

Hermanns – E Guerra Conjugal?

Joaquim Pedro – Guerra Conjugal é uma crítica da civilização terno e gravata. Essa indumentária vai associada a um certo tipo de comportamento moral que é – aí sim – uma guerra danada e muito egoísta. Na verdade, um quer derrotar o outro e a união entre eles é provocada pela fraqueza de cada um. Não há quem escape, a não ser o próprio Nelsinho que é o pior, que é “ o Vampiro de Curitiba ”, como o Dalton Trevisan o chamava, que no fim diz que se redime, porque atinge o máximo do pecado. O que é uma velha tese – se eu não me engano cristã –, de você atingir a santidade pelo excesso de pecado. Porque tem muito santo que era libertino ou um guerreiro implacável, cruel, e que um belo dia tem uma iluminação e passa a ser o contrário. O excesso de pecado coloca o indivíduo em contato com a santidade. Esse último filme que eu fiz era sobre santidade e carne, coisas que acho engraçadas. Porque a castidade é uma invenção delirante do espírito para negar o próprio corpo.


Ute Hermanns prepara tese de doutorado em cinema brasileiro e é professora assistente temporária de literatura brasileira do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim.




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